de omnibus dubitandum est

Ensaios prepotentes, achismos displecentes.

Diálogos truncados.

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No começo era uma bobagem que não valeria o esforço que levo para escrever o mais simples do posts, mas como o assunto rendeu, a situação vale um comentário.
Zeca Camargo até um tempo atrás tinha um dos melhores textos do jornalismo cultural. Hoje, o homem está envelhecendo mal, é duro ter que aguentar afetações como “mas quero só assinalar que é nossa obrigação, como seres pensantes, venerar qualquer coisa que venha do Radiohead – ou um de seus membros”. Ele está falando da trilha sonora do filme Sangue Negro assinada pelo guitarrista do grupo, Jonny Greenwood, que registre-se acho genial, agora não embarco nesses chiliques. Contudo até uns dez anos atrás, suas resenhas não apenas eram divertidas quanto atualíssimas. Graças a Camargo é que li pela primeira vez de uma certa banda inglesa que lançava um disco homônimo, um tal de Portishead. Outra comentando sobre o álbum Elegantly Wasted do INXS, disse que mal podia esperar pelos próximos dois CD’s do grupo, mas especificamente o 2º, afinal se aquele era uma cópia descarada de The Joshua Tree do U2, era de se esperar que chupariam em seguida o Rattle and Hum e Achtung Baby. Suas coberturas do Free Jazz acredito que do ano de 1997, o que teve Neneh Cherry e Jamiroquai, e de uma revista francesas sobre os 100 melhores singles de todos os tempos, são influências recorrentes no estilo almejado pelo signatário do blog.
Pena que a GLOBO desperdice o talento do sujeito com entrevistas ridiculamente pomposas como a de Sandy e Júnior, discutindo esse grande abalo da música pop que significou o rompimento da dupla (morri de rir com os lentos travellings, e cortes para close-up, num cenário de um palco vazio imenso, na tentativa de dar alguma gravidade solene), ou agora com essa série de matérias sobre o Japão. Se eu tivesse a chance de viajar para um país fascinante como o Japão não titubearia, agora pensar que rende interesse é outra história (numa sondagem com conhecidos a extensa maioria qualifica a reportagem como um porre).
Finda a introdução.
Na semana passada, Zeca Camargo soltou a pérola em seu blog no G1 sobre a mini-série Queridos Amigos: fui só eu que tive a impressão que minha TV aberta tinha, de repente, se transformado numa HBO?
Hehe! E Paulo Coelho também pode, de repente, se transformar em Machado de Assis (que alias também esta hospedado no G1).
Uma afirmação sem-graça, merece um comentário sem graça, cortei e colei o que ele tinha escrito e acrescentei “menos garoto, menos…”.
Estranhei que o moderador do blog cortou meu post, que era obviamente gaiato. Não ofensivo. Mas é do jogo, existe o aviso que os comentários são avaliados e podem ser limados, e não recrimino, sendo ele uma persona pública, imagino a quantidade de chateação que tem que aturar. Achei desproporcional, entretanto, estes são meus critérios, poderia questionar os deles se fossem públicos, não os são, então como disse antes, aceito a retirada.
Se parasse aqui, teria apenas uma história para contar a amigos. Só que muita gente implicou com a frase, e como confessa amigos e conhecidos diletos de Zeca Camargo que acabou escrevendo um novo post, na tentativa de explicar o que queria dizer.
Se antes era um acidente de carro, agora temos trens colidindo.
Então o que Queridos Amigos tem em comum com as séries da HBO é que um personagem fala descaradamente mal da TV no programa. Menos que uma revolução isto mostra o atraso da nossa televisão. Um personagem de ficção pode falar mal da TV, ser machista, pedófilo, defender a castração de ciganos e judeus, viciado em substância ilícitas, o escambaú (e antes que alguém levante a lebre, não é que acho reprovável alguém reclamar da TV, apenas quero mostrar que a dramaturgia pode tratar qualquer tema, inclusive os repulsivos). O que não pode é ser mal escrito, coisa que ele admite que está ocorrendo, quando malha os diálogos melosos do programa.
Talvez o espanto venha porque a mesma emissora atualmente vem “recomendando” seus funcionários, inclusive os do jornalismo, a falar recorde, em vez do gramaticalmente correto recorde, apenas pela pusilaminidade de evitar qualquer vinculação com a TV RECORD, que vem crescendo de audiência, ainda que ainda nade de braçada da concorrência, a GLOBO passa por constragimentos como quando é ultrapassada na audiência nas (e só nas) noites de quarta-feira, inclusive quando transmitia um jogo do Corinthians. Não pode-se esquecer que sempre que falam sobre trabalhos pregressos os “colaboradores” (como odeio essa palavra usada neste sentido!) sempre se referem à “outras emissoras”, raramente citando-as nominalmente. Já vi casos patéticos em que uma atriz numa entrevista falava de sua estréia era para todos os efeitos foi quando estreou na emissora carioca, desprezando suas atuações no SBT, que tivesse vergonha do desempenho (e bem podia ter mesmo, era um lixo, a atuação, personagem e novela), é outra história, ignorar o passado é vergonhoso.
Uma breve digressão, o que aconteceu com o Vídeo Show, pelo ao menos até a época que Márcio Garcia substituiu Miguel Falabella, era muito bom, e não falava apenas de televisão, cobria cinema, e até quadrinhos, lembro que assistiu uma matéria sobre a produção da obra-prima Marvels de Kurt Busiek e Alex Ross. Hoje não passa de um release vagabundo sobre as atrações da GLOBO (além de uma justificativa para o salário de Angélica e Fernanda Lima), não serve nem como institucional já que duvido que uma empresa queira ter sua imagem vinculada a um banana como André Marques, o eterno Mocotó de Malhação.
Seria ótimo que a TV tratasse além de si mesma, mas a própria mídia em geral, como a concessões para emissoras da parte da GLOBO, por políticos como a família Sarney no Maranhão, e a Magalhães na Bahia, ou num plano maior a aquisição de grupos midiáticos por igrejas como a Católica e seitas como a Universal do Reino de Deus. Incluindo a recente ofensiva de intimidação, através de uma infinidade de ações judiciais, de várias regiões do país, muitas com texto idêntico contra a Folha de São Paulo, e sua jornalista Elvira Lobato,que publicou uma matéria questionando a origem dos fundos da seita e vários membros dela que detêm suas concessões públicas. Só vi o assunto discutido no Observatório da Imprensa na TV Brasil e de madrugada, uma pena.
Voltando agora, ele também fala do uso de linguagem mais forte, inclusive chula. Há muito tempo que não me impressiono com crianças falando coisas como pentelho. Abordagem mais maduras de um programa que nunca passa antes das 23:00, não é um avanço, é uma possibilidade.
Não vou perder meu tempo comparando Queridos Amigos a por exemplo, Família Soprano ou Roma, é matar mosca usando uma bomba atômica, prefiro chamar atenção para o fato que Desperate Housewives que tem várias vezes mais venalidade, diálogos afiados, e personagens intrigantes, nos Estados Unidos passa em canal aberto, em horário nobre, na rede pertencente a um conglomerado que rima com família, a DISNEY.
Poderia argumentar que os Estados Unidos são mais liberais. Falso, alguns americanos são assim, mas a maioria deles é conservadora, ou não teria reeleito George W. Bush. O que explica o sucesso de Desperate Housewives? Ora o programa é excelente. Bastou isso, embora a ABC, emissora também de Lost, também está longe de ser uma HBO.
Num post mais sensato, Daniel Piza, jornalista do Estado de São Paulo discorre sobre como a televisão, infelizmente apenas e tão somente a por assinatura, oferece mais que entretenimento mais grandes opções artísticas.

Escrito por alexandremelo

fevereiro 29, 2008 em 10:55 pm

Parece que o cargo está vago.

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Estou me candidatando ao cargo de editor da versão local do GLOBO ESPORTE. Meus requisitos, bom-senso, e reviso qualquer texto que me cai a mão, inclusive aqueles que não escrevi, e de qualquer assunto.
Eu jamais deixaria passar uma bobagem como a que vi hoje. Na chamada a apresentadora, Mariana Sasso disse, “O Ceará confirma sua fama de celeiro de talentos do handbol”.
Celeiro de talentos do handbol? O Ceará? Do que ela está falando?
A matéria mostrava duas garotas que estão de mudança para Santa Catarina. Duas garotas mesmo, adolescentes, receberam o convite para jogar por um time de um colégio do sul. Nem ao menos é um time profissional. As duas estão certas, devem ser boas atletas, para a idade, por isso receberam a proposta, e alguma vantagem, ao menos hospedagem, devem ter garantidas. A família ganhou um vídeo profissional para passar nas festas de família. O jornalismo esportivo perdeu espaço para uma matéria relevante. E olha que o futebol cearense tem muita pauta interessante para ser coberta.
Mas estou sendo muito esperançoso, afinal uma crônica esportiva que tem alguém do naipe de um Victor Hannover…

Escrito por alexandremelo

fevereiro 29, 2008 em 10:32 pm

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Conduta de Risco (Resenha)

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É divertido pensar que é uma piada metalinguística. Tamanho o fiasco de Batman & Robin, resultou no engavetamento por 8 anos de qualquer projeto com o Homem-Morcego, e depois de muitos senões reiniciasse a franquia do zero, com o foco numa abordagem realista, fugindo do carnavalesco que até então dominava a série. No meio de Batman Begins, o menino Bruce Wayne ouve de seu pai o conselho, “por que nós caímos, ora para nos levantarmos em seguida”.
Com as exceções de Alicia Silverstone e Chris O’Donell, que continuam num limbo, não é que Joel Schumacher, Akiva Goldsman, Arnold Schwarzenegger, Uma Thurman, também ouviram o ensinamento de Thomas Wayne. Schumacher dirigiu o competente Por Um Fio, e o ótimo Tigerland. Goldsman depois ganhou o Oscar de roteiro por Uma Mente Brilhante, escreveu também Eu, Robô e recentemente quebrou a banca com nova parceira com Will Smith em Eu Sou A Lenda. Schwarzenegger se reinventou como governador da Califórnia, e não deixa de ser interessante um membro do Partido Republicano imigrante, pró casamento gay e com plataforma ecológica. Uma Thurman chutou o mala do Ethan Hawke, depois de descobrir que ele a traía, e não largou o pé de Quentin Tarantino até que cumprisse uma promessa vaga de um filme que ela protagonizaria de uma mulher que parte para a vingança contra o marido que tentou matá-la no dia do casamento. Sem isso talvez não veríamos Beatrix Kiddo empunhando uma Hattori Hanzo num colante amarelo emulando Bruce Lee no filme Arena da Morte, em Kill Bill.
Mas de todos a volta por cima mais surpreendente é a de George Clooney, é verdade que aproveitou a bolada que recebeu no desastre para comprar um palácio medieval em Lago Como, na Itália, onde mora, mas manteve o cachê congelado, o que não afugentou para ser convidados para projetos diferenciados. Um deles, que deu início a esta guinada, investimento seu numa produtora em conjunto com o diretor Steven Sodenbergh: Irresistível Paixão. O filme é excelente, muito divertido, digamos que lembra 11 Homens e um Segredo, pois Clooney repete o papel de ladrão charmoso, mas sem pirotecnias e com um roteiro melhor, não é à toa que é melhor papel de Jennifer Lopez, que esta incrível, e não me refiro apenas a sua forma física.
Deliberadamente não comentarei a faceta de Clooney como diretor, estou me estendendo muito, o assunto merece atenção especial, e ainda nem comecei a falar sobre o filme que me propus. Com sorte após o lançamento de sua nova empreitada, Leatherheads terei a chance de rasgar a seda.
Clooney tem suas melhores atuações em papéis opostas a sua persona pública de glamour e simpatia, homens moralmente ambíguos, dilacerados por conflitos e frustrações internas. Tais como o major Archie Gates de Três Reis, o cientista Chris Kelvin no (lamentavelmente de público restrito) Solaris e o agente da CIA Bob Barnes de Syriana, este último lhe valeu o Oscar de ator coadjuvante. E se este ano não fosse o de Daniel Day-Lewis, seria razoável esperar que levasse outro nessa vez na categoria principal por Conduta de Risco.
É o primeiro filme como diretor, do até então roteirista Tony Gilroy, o mesmo da série Jason Bourne. Da trilogia do agente desmemoriado, Gilroy foi especialmente bem sucedido em transplantar o sentido de urgência, inclusive com uma edição frenética, com muitos cortes (mas não maçante). O que torna mais admirável, é que na película raramente os conflitos acabam em violência física, em vez disso ela se manifesta em diálogos cortantes.
A história transcorre num espaço de 4 dias em que Michael Clayton (George Clooney), um advogado de uma grande firma em Nova York. Clayton é especializado na área do Direito que ele próprio chama de faxina. Através de uma extensa rede de contatos limpar a “sujeira” que os clientes de seu escritório. Num momento especialmente delicado, divorciado sem a guarda do filho, falido devido a um restaurante que não deu certo, devendo a agiotas que sem trégua lembram que o prazo vence numa semana, é chamado para limpar um estrago do tamanho do desastre de Chernobyl.
Um dos sócios-seniores da firma surta durante uma audiência de litígio, onde defendia uma Conglomerado Industrial que produziu um herbicida cancerígeno, contra uma ação coletiva de habitantes de uma cidadezinha em Milwaukee. O processo se arrasta a seis anos e o valor da indenização alcançou os 3 bilhões de dólares. Arthur Edens tem uma espécie de epifania, se recusa a tomar seus remédios contra depressão, e passa a sabotar seu cliente. Em pânico os outros sócios esperam que Clayton convença Edens a retomar sua medicação, e concluia o caso.
Uma das melhores sacadas do enredo é mostrar o quanto as pessoas que lidam com esse lado obscuro das grandes corporações tem que se manter constante estado de anestesia. Edens é o único caso clínico, mas os demais personagens tem que usar máscaras; anulam a espontaneidade como Karen Crowder (Tilda Swinton), que ensaia compulsivamente suas respostas até o ponto em que soam naturais. Marty Bach engole quaisquer escrúpulos ao ver a quantidade de horas desprendidas no caso e de olho numa fusão com um escritório de Londres. Os capangas a serviço da U/North, a tal empresa, que executam o serviço sujo,inclusive no sentido mafioso dessa expressão.
O elenco merece destaque, defendo com garra seus papéis, já me manifestei quanto a Clooney, mas também é certo esperar um grande trabalho de Tilda Swinton, uma mulher que tenta se condicionar a ser o executivo que se espera dela, transformando-se numa caricatura assustada e histérica. E o que dizer de Tom Wilkinson, esplendoroso. Não consigo me lembrar um filme em que estivesse mal, mais ainda, não sei se o crédito é dele o de seu agente mais também o número de ótimos filmes que participa, Entre Quatro Paredes, O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Oscar e Lucinda, Moça com Brinco de Pérola e veja só: Batman Begins.
Por favor, veja o trailer do filme que posto abaixo. Atenção para a seqüência de diálogos de tão polidos que ofuscam, meu favorito é Clayton dizendo “eu não sou o cara que você mata, sou o cara que você compra” (só por preciosismo não escolho “eu sou Shiva, o deus da morte”, o correto seria Kali). Se possível vá ver este belo filme. Excendo-me ainda mais, veja nos cinemas, se ainda em cartaz, ao menos para ver o fabuloso final, com a lírica última cena na tela grande.

Escrito por alexandremelo

fevereiro 24, 2008 em 11:00 pm

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Onde os fracos não tem vez (Resenha)

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Uma trivialidade, este é o primeiro filme dos irmãos Cohen que assisti no cinema. Estou feliz, poderia ser um da safra mediana, como O Amor Custa Caro, Matadores de Velhinhas, ou Na Roda da Fortuna. Para minha sorte, Onde os Fracos Não Tem Vez, ombreia com os melhores como Gosto de Sangue, Ajuste de Contas. Alguns mais entusiastas afirmam que é o melhor filme da dupla desde Fargo, polidamente discordo, O Homem que Não Estava Lá é melhor, e com alguns corpos de vantagem.
Caso o leitor do blog seja cinéfilo, acredito que enxergará um padrão, sempre que revisitam o gênero noir, Joel e Ethan Cohen, nos entregam uma nova gema cinematográfica. Numa visão heterodoxa, esse axioma também abrange Barton Fink, que não deixa de ser um suspense, ainda que com andamento e toques de humor bizarro.
Onde os Fracos Não Tem Vez, é adaptado do livro de Cormac McCarthy. Seus livros tocam numa releitura do Oeste americano, principalmente no que ele próprio definiu Trilogia da Fronteira: Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidade das Planícies. O primeiro virou um filme, Espírito Selvagem, dirigido por Billy Bob Thornton, com Matt Damon e Penélope Cruz, um filme ruim ressalte-se.
Melhor sorte desta vez, durante uma caçada um zé-ninguém, Llewelyn Moss (Josh Brolin), encontra no meio do deserto no Texas uma mala cheia de dinheiro e dezenas de corpos numa compra de drogas que deu fatalmente errado. Moss é o que os americanos chamam de white trash, não tem renda definida, mora num trailer com a mulher, outra pobre coitada. A grana pode significa a redenção dessa vidinha medíocre, mas tanto dinheiro assim dá início a uma caça ao tesouro dos tipos mais vis da espécie humana.
O pior deles é personificado em Anton Chigurh (Javier Bardem, pule de dez para o Oscar de melhor coadjuvante neste domingo), numa releitura do pistoleiro dos filmes de faroeste, sempre vestido de preto. Chirgurh nunca se exalta, metódico no agir e quando necessita de cuidados médicos (a cena em que consegue remédios é memorável), sua fala é sempre mansa e baixa, não importando a situação, que de forma invariável termina com várias mortes pelo caminho, algumas por futilidades decididas num cara ou coroa. Muitas delas pelo uso original dum cilindro de ar comprimido, que ao longo do filme se revela das armas mais letais, uma das atrações do filme.
O filme é amargo, qualquer sentimento ou gesto solidário quando não põe os personagens em perigo, é recriminado. Uma atitude gentil de Moss, fornece a trilha que possibilita saber que achou o dinheiro; um motorista alerta que não se deve pegar caronas. Ou na melhor cena que exemplifica: Anton Chigurh pede uma camisa a dois garotos, um deles a oferece, e de graça, mas Chigurh insiste em pagar ao rapaz, começando uma discussão com o outro que exige que divida o dinheiro.
Uma ironia sutil é que a ação se desenrola em 1980, justamente quando começaram as eras Reagan e Thatcher, os dois políticos são o ápice de um modelo de extremo individualismo, que não foi substituído até hoje. Moss se recusa a pedir ajuda, pensa que tem um plano perfeito, que pode resolve tudo sozinho. Chigurh elimina não só a “concorrência”, mas qualquer um que possa ajudá-lo, é óbvio que por exemplo, quando ferido pode subornar um médico, mas se recusa a isso. A cena que descrevi acima, da camisa, só ocorre por uma excepcionalidade.
O roteiro como soe acontecer com os irmãos Cohen é excelente, tão bom que tem gerado uma incompreensão quanto ao final descrito como anti-climático. Credito as queixas a um certo condicionamento a finais fechados. É notória a aversão das platéias americanas, e por tabela, mundial a subjetividade. Mas o final aparente controverso está de acordo com as idéias expostas no filme.
O fim é com duas conversas de Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife que sai a busca de Moss. Ele abre o filme com uma narração em off sobre xerifes que no passado não portavam armas, bastava sua força moral para impor respeito. O oeste americano sempre foi violento, Bell sente que os novos tempos acabaram com os códigos, e a proporcionalidade. No mitológico tiroteio de OK Curral que fez a fama de Wyart Earp e Doc Holliday morreram 23 pessoas, bem menos que Chigurh mata, com muitas dessas mortes gratuitas.
Bell não consegue conviver com um mundo assim. Numa conversa com seu auxiliar mescla paradoxalmente indignação e resignação ao ler uma noticia de jornal onde vizinhos só perceberam que o casal de idosos da casa ao lado foram mortos pelos homens que ocupavam a casa quando foi perturbados em sua tranqüilidade do lar, não associaram o fato de velhos sumirem depois que esses indivíduos apareceram, nem quando mais tarde começaram a cavar buracos no quintal. Como dito antes a aurora do individualismo.
Isto leva Ed Tom Bell ao tocante final, duas conversas, onde reflete sobre o passado e os tempos atuais lembrando o pai, o avô, e a si próprio, três gerações de xerifes. Numa conversa com o auxiliar de seu avô falam dos velhos tempos, refletindo sobre violência e vingança, e mais tarde com a mulher a descrição de um sonho com o pai. Falando por mim: Espetacular!

Escrito por alexandremelo

fevereiro 19, 2008 em 9:28 pm

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Olhando pelo avesso.

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Analiso prêmios de maneira reversa, para mim não são eles que transferem credibilidade a seus escolhidos, sendo justamente os laureados quem lhes conferem relevância. O melhor exemplo disso foi o OSCAR do ano passado. Após cinco indicações ao troféu de melhor diretor, finalmente Martin Scorcese ganhou por Os Infiltrados. Quem saiu consagrado com isso não foi Scorcese, que pode ser considerado o maior diretor americano vivo, mas a Academia de Artes Cinematográficas Americana. Abomino a idéia de uma suposta retificação/consolação por todas as vezes que foi preterido (inacreditável em 1991, quando perdeu para Kevin Costner por Dança com Lobos, no ano que concorria, perdoa-os Senhor, Os Bons Companheiros) . Os Infiltrados é um filmaço, embora por essa ironias da vida, esteja num patamar abaixo d’Os Bons Companheiros (citado antes); e óbvio, Touro Indomável.
Sempre que penso no GRAMMY lembro de uma gag do desenho d’Os Simpsons, toda Springfield esta reunida no teatro da cidade para uma premiação da comunidade, TODOS os cidadãos são agraciados por algum prêmio porque se inventou centenas de categorias para que não se deixasse ninguém de fora, com exceção de um, Homer. Num dado momento, Homer se queixa para Marge que nunca ganhou nada na vida, a esposa lembra que ele ganhou um GRAMMY (tem um episódio que junto com sua equipe de boliche, Homer funda um grupo vocal, compõe uma canção one-hit-wonder, ganha o prêmio, e logo se separam pela briga de egos). Homer dispara: “o GRAMMY é um prêmio sem valor”, quando ainda está se recuperando da piada, a imagem congela e vem uma voz grave: “Os produtores de Simpsons querem deixar claro que não concordam com a opinião de Homer [breve pausa], não chegamos a considerar o GRAMMY um prêmio.
Existem inacreditáveis 110 categorias, e outras tantas para a versão latina. Tão surpreendente quanto quem nunca ganhou, Led Zeppelin, Bob Marley; não é nem quem ganhou, Barack Obama neste ano pelo audiobook de sua biografia, anos antes Hillary Clinton também por um audiobook de um livro para crianças. É quem concorrendo deixou de ganhar, um site estrangeiro listou as maiores comidas de bola, veja as bizarrices, e se indigne comigo.

  • Em 1992, quando o Nirvana ofuscava tudo a seu redor, “Smells Like Teen Spirit” perdeu para a versão acústica de “Layla” (de Eric Clapton) o troféu de melhor canção de rock
  • Em 2000, com “Kid A” (do Radiohead) e “The Marshall Mathers LP” (do Eminem) na disputa por melhor disco do ano, deu Steely Dan (com “Two Against Nature”)
  • O lendário Public Enemy perdeu duas vezes para a cafonice de Will Smith (sob a forma de Jazzy Jeff And The Fresh Prince): em 1988 – só o ano em que o PE lançou “It Takes a Nation of Millions To Hold Us Back” – e em 1991
  • Concorrendo com Frank Sinatra, Billy Joel, Barbra Streisand e Pink Floyd por melhor álbum de 1980, Christopher Cross (Quem???????? O da música-tema de “Arthur, o Milionário Sedutor”) levou.
  • Em 1988, com a banda tinindo nos cascos, o Metallica perdeu o troféu de melhor performance de metal para o Jethro Tull e sua flauta!

Na 50ª edição apresentada ontem, limpou um pouco a barra, a dar cinco gramofones, dos seis em que foi indicada, à cantora inglesa Amy Winehouse, inclusos o de canção do ano, a maravilhosa Rehab, e melhor álbum pop, Back in Black (só não levou por disco do ano, River: The Joni Letters de Herbie Hancock, foi o agraciado).
Rehab é uma tapa com luvas de pelica no politicamente coreto, ao dramatizar uma discussão da cantora com seu empresário. O sujeito queira interná-la numa clínica de reabilitação para melhor a imagem dela, se ajudasse a largar o vício em substâncias ilícitas também seria bom, mas não era o foco principal. O que ela fez? Bateu o pé e se recusou.
Mas a música não tem nada em comum com essa penca de lixo etílica-escrota que tanto viceja no funk carioca ou em grupos de forró. Não com versos assim, Yes I been black but when I come back you’ll know, know know/ I ain’t got the time/ And if my daddy thinks I’m fine (…) I ain’t got seventy days/ Cos there’s nothing, nothing you can teach me (…) I don’t ever want to drink again/ I just, ooh I just need a friend/ I’m not gonna spend ten weeks/ And have everyone think I’m on the mend.
Ao contrário da escória que faz elegia da bebedeira, ela sabe que tem um problema, mas o que precisa mesmo é de apoio, um amigo. E desesperadamente, dado a quantidade de problemas e contragimentos que vem passando, flagada com maconha e cocaína pela polícia no aeroporto, fotografada só de sutiã e jeans na fria noite de Londres flagantemente bêbada, divulgação de um vídeo onde supostamente consome crack.
Seus excessos tem algo de anedótico (ela não pôde ir aos Estados Unidos, por que não teve o visto liberado a tempo), Numa premiação do British Awards, enquanto Bono fazia uma perolação sobre os famintos na África, ela estava aos berros “shut up, fuck”. Pode parecer engraçado, mas devemos resistir na transformação em algo palatável do circo montado na exibição de alguém se auto-destruindo. O que torna ainda mais triste é que, ao contrário de digamos Britney Spears, Amy Winehouse é uma senhora cantora, Rehab é ótima mas minhas faixas favoritas são as espetaculares You know I’m no good e Love is a losing game.
Faço votos sinceros que Winehouse mantenha as coisas na ordem certa. Sempre nos lembrando, que não é favor reconhecê-la como a grande cantora que é.
Veja a performance dela, num estúdio em Londres, para o GRAMMY.

E a surpresa em levar “a música do ano” (Comentário meu: surpresa pode ser, imerecido nunca)

Now playing: Amy Winehouse – Addicted
via FoxyTunes

Escrito por alexandremelo

fevereiro 11, 2008 em 9:12 pm

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Observações numa quarta-feira de cinzas

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Carnaval me faz pensar em Schopenhauer. Isso deve ter soado esnobe. Tenho essa fama, não exatamente imerecida, mas um tanto exagerada. Voltando, carnaval me lembra um aforisma do filósofo alemão que diz, “há no mundo apenas a escolha entre a solidão e a vulgaridade”. Este deve ser o sétimo ano em que toda a família viaja no período momino e fico só em casa.
Não tenho problemas em ficar sozinho, genuinamente não gosto de agitação, multidões, considero axé uma música deplorável (prefiro não comentar a dança do créu), e não tenho mais 6 anos para achar graça em marchinhas de carnaval. Preferi nestes períodos ouvir muito Cocteau Twins, Amy Winehouse, Flaming Lips e Feist a todo volume, algumas extravagâncias como acordar ao meio-dia, e uma leitura aprazível, Stalin Desconhecido de Zhores e Roy Medvedev (Ed. Record, R$ 54,90).
Claro que chega momentos que quero ficar à toa, caminho um pouco, dou uma olhada nos cachorros, faço uma boquinha, e vejo televisão. Neste último geralmente para me aborrecer, já que como no Natal as pautas são monotemáticas. Sendo que o Natal tem muito mais facetas a explorar: alegria, penintência, reflexão, tristeza, generosidade, esperança; carnaval não, se martela todo tempo em alegria, festa. Tudo por uma monstrusa preguiça das produções dos programas e jornais. O mesmo lugar-comum que vende a idéia que no final de semana não acontece nada. E tome programas de auditório, e jornais noticiando ursos coalas tomando sorvete para aplacar o calor.
Não sei se só eu penso assim, mas para quê transmitir shows e desfiles de escolas de samba pela TV, quem fica em casa neste período é porque gostaria de ter outra opção, caso contrário estaria na rua brincando. O SBT foi minha salvação nessas noites, resolveu exibir os ótimos Um Sonho de Liberdade na sexta e O Senhor dos Anéis – As Duas Torres no sábado programa bem melhor que ouvir Maurício Kubrusly falando abrobrinhas como: “O carnaval é a prova de que é possível falar sem palavras”, ou ainda as dezenas de vezes que Chico Pinheiro e Renata Ceribelli soltaram “Olha aí que bonita a arquibancada”, “Essa energia toda”, “Olha que bonita a escola”, “Olha que imagem bonita”, “Olha que luxo essa fantasia”, “Olha que alegria”, “Olha aí a emoção…”, “Olha a beleza desse casal de mestre-sala e porta-bandeira”, “O sambódromo é um tapete de alegria”.
Coisas assim só valem pelo humor involuntário, mas quem leva o prêmio no festival de bestialidades é Nayara Gusmão, do programa Tarde Livre da TV DIÁRIO. Uma pobre-coitada que tem a elaborada função de ler num notebook as fofocas dos celebrities (uiiiii!), fazendo um abalizado comentário. Falando com a apresentadora do programa, Natália Varela se os ditos famosos aproveitavam o carnaval para comer de tudo. Fiquei imaginando que no resto do ano eles só se alimentam com aquela gosma que o Robocop come.
Depois ela disse: “essas são as operações que as pessoas pedem aos cirugião (sic)”.
“O nariz da Catarina.”
Conhece alguma Catarina famosa, vai ver não é Catarina e sim Katarina, nada ainda? Mostraram uma foto, mas como seria demais pedir que uma emissora ralé como a TV DIÁRIO tivesse uma banco de imagens decente, a foto era tirada da internet, e tinha uma baixa resolução. Estou chutando que era a Kate Hudson de Quase Famosos, mas não dá para ter certeza.
“As maçãs da atriz americana Kira.”
Talvez fosse mas fácil se Nayara Gusmão dissesse os sobrenomes das pessoas. Mostraram uma foto da “atriz americana Kira”, só estão corretos que a moça é atriz e que suas maçãs dos rosto são muito bonitas. Keira Knightley nasceu na Inglaterra, e pelo que sei ainda mora lá.
“A boca de Renê Zena.”
Renê Zena???? Parece nome de coadjuvante e novela mexicana. Dessa vez ela deu uma dica.
“A atriz de Britney (sic) Jones”
Ahhh, Renée Zellweger, atriz de Bridget Jones.
Para mim já é demais, é melhor voltar para o livro, e ler sobre o assassinato de Bukharin.

Escrito por alexandremelo

fevereiro 6, 2008 em 4:29 pm

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Ludopédicas: Menos garoto, menos…

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Eric Farias, repórter do Globo Esporte, disse ontem que o jogo da seleção brasileira contra a Irlanda desta quarta-feira “com certeza entra para história do futebol irlandês”.
Sim, e por quê?
O jogo é mais desses amistosos caça-níqueis que a CBF tanto gosta, não vale nada. Se tem algum significado para a Irlanda é negativo, a quatro meses o time está sem técnico, sendo improvisadamente dirigido pelo responsável da seleção sub-21, Don Givens.
Talvez, no final das contas este jogo importe mais para o escrete brasileiro, afinal é uma das poucas oportunidades de testar jogadores com idade olímpica. Só que essa teoria não fica de pé sozinha. Alexandre Pato, o principal nome a ser observado, e Kaká, que só por obtusidade será excluído como um dos três convocados com mais de 23 anos, estão contundidos. O próprio Dunga, técnico do Brasil diz que não tem condições de fazer um treino digno antes da partida, e claro, não tem colhões para escalar um time só de garotos para ao menos vê-los como se saem, pois não seguraria o tranco de uma derrota para a temida Irlanda!
Um dos grandes problemas do jornalismo atual é a relação promíscua entre os departamentos comercial e jornalístico. O profissional além de noticiar o evento tem que também promovê-lo, a despeito da real qualidade deste. É mais fácil perceber essa malversação no esporte, mas ela também esta disseminada na área de cultura e economia. Um mesmo grupo edita um jornal, e lança um empreendimento, o primeiro divulga-o relegando critérios de relevância e imparcialidade.
A rede GLOBO, tem a exclusividade dos jogos da seleção, e vive de audiência, daí temos que aguentar Galvão Bueno se esgoelando, tentando vender uma coisa que efetivamente não vemos em campo. Pela sua narração o jogo esta emocionante, e na realidade a partida está numa modorra só.
Lembro de um caso no brasileirão do ano passado (outra posse da GLOBO), numa propaganda do tradicional jogo da quarta-feira à noite, após a novela das nove (uma excrescência, diga-se de passagem), Dirceu Rabelo, locutor oficial da emissora soltou: “São Paulo e Juventade, um jogaço com muita emoção, coisa em disputa”. Era a 35ª rodada, na anterior o São Paulo tinha acabado de ser tornar o campeão brasileiro ao vencer de 3X0 o América de Natal; o Juventude ocupava a semi-lanterna da competição, com remotas chances de escapar do rebaixamento, tanto que no final caiu para a segundona. O jogo? Ruim de dar dó, 0X0.Importante: o signatário do blog não apenas é são-paulino, como é entusiasta do sistema de pontos corridos. Contudo não corrobora engodos como os descritos acima.

Escrito por alexandremelo

fevereiro 6, 2008 em 2:28 pm

Eskindô, Eskindô!

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Todos juntos agora, cantando:
Paz, carnaval, futebol
Não mata, não engorda e não faz mal
Carnaval, futebol
Se joga para cima e vira solCarnaval, futebol
Não mata, não engorda e não faz mal
Carnaval, futebol
Se joga para cima e vira solVai vai vai fica aqui meu avião
Vem vem vem que o Brasil não tem vulcão
Vai vai vai suba aqui na minha moto
Vem vem vem aqui não tem terremoto

Eu canto,
Paz, carnaval, futebol
Não mata, não engorda e não faz mal
Carnaval, futebol
Se joga para cima e vira sol

Vai vai vai fica aqui meu avião
Vem vem vem que o Brasil não tem vulcão
Vai vai vai suba aqui na minha moto
Vem vem vem aqui não tem terremoto

Temporal de calor,
Tome um sorvete,
O tempo é bom para o amor
No pólo sul tem vento frio
Pra namorar,vem todo mundo atrás do trio

Beija docinho,
Que estou doidinho,
Pra te molhar a boca,
Insolação
Febre e paixão
Dei férias ao meu coração

Eu canto,
Paz, carnaval, futebol
Não mata, não engorda e não faz mal
Carnaval, futebol
Se joga para cima e vira sol

Temporal de calor,
Tome um sorvete,
O tempo é bom para o amor
No pólo sul tem vento frio
Pra namorar,vem todo mundo atrás do trio

Beija docinho,
Que estou doidinho,
Pra te molhar a boca,
Insolação
Febre e paixão
Dei férias ao meu coração

Eu canto,
Paz, carnaval, futebol
Não mata, não engorda e não faz mal
Carnaval, futebol
Se joga para cima e vira sol (2x)

Vai vai vai fica aqui meu avião
Vem vem vem o Brasil não tem vulcão
Vai vai vai suba aqui na minha moto
Vem vem vem aqui não tem terremoto

Vai carnaval!

Vi a pouco, houve um acidente com as arquibancadas da avenida Domingos Olímpio, onde desfilam as escolas de samba e maracatus da minha cidade, Fortaleza. Óbvio, toda a estrutura é improvisada, montada às pressas, usa tábuas de madeira de aparência ruim. É um tragédia, mas anunciada, e dessa vez, com a anuência do Corpo de Bombeiros, que pela primeira vez, vistoriou e aprovou a construção.
Por tudo isso me recuso a chamar o que houve de acidente. O que parece obra do Tinhoso é que momentos antes da arquibancada cair a secretária de cultura de cidade, Fátima Mesquita dava uma entrevista a TV O POVO. O Cramulhão mostrou requintes ainda maiores de malícia pois a secretária respondia uma reclamação dos jornalistas sobre o atraso de duas horas para o início do desfile, defendendo que a desorganização já era uma tradição do Carnaval da cidade e que devemos relaxar e relevar tudo, afinal é uma festa!
Outro canal, a TV DIÁRIO, deu um flash ao vivo do local, mostrou a confusão, desespero das pessoas. No final da inserção soltaram a vinheta colorida com o pandeiro “Carnaaaaaaaval no Nordeste, é na TV DIÁRIO“. Voltou para a programação normal, Ênio Carlos, um animador de auditório (talvez o mais detestável tipo na televisão, e esse está entre os piores), entrou sorridente chamando um grupo de pagode.
Essa leniência incrustrada no caráter do brasileiro me intriga. Mais de uma vez conversando com amigos cariocas, eles sempre tentavam contornar a questão da degradação do Rio de Janeiro como os clichês: o Rio é lindo, ou não importa o que aconteça, nada mancha aquele paraíso. Enquanto pensam assim mais e mais a cidade afunda.
Antes que me esqueça, futebol mata sim! Não menciono as torcidas organizadas, pois essas resvalam na criminalidade, não se esperando outra coisa, mas assinatos com aval de clubes, federações, e governo. Foi o caso do estádio da Fonte Nova, na Bahia, terra da banda que canta a musica acima. Morreram sete pessoas com a queda do anel superior do estádio, durante uma partida oficial da 2ª divisão. Nesse mesmo estádio havia um pedido do Ministério Público para interdição devido às suas condições deploráveis , mas foi cassado.
Na 3ª estrofe dessa Insolaração no Coração (nome da canção, cantada pelo Babado Novo), diz que no Brasil não tem vulcão, é verdade, e também não tem paz. Basta ler o relatório anual da Human Rights Watch. É minha dica de leitura deste carnaval.

ESKINDÔ, ESKINDÔ
VAI CARNAVAL!

Escrito por alexandremelo

fevereiro 3, 2008 em 10:54 pm

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Este post é um legítimo pedido da audiência. Um leitor do blog sugeriu que discorresse sobre a montagem nos cinema. É importante deixar claro que não sou profissional, e nem estudioso do assunto, só sou uma cara que gosta muito de filmes, assistiu uma boa quantidade deles e acredita ter uma base, e cara-de-pau para este achismo displicente, por isso peço desculpas, não tenho base para uma explanação acadêmica ou histórica, e serei omisso com muitas das referências obrigatórias dessa incrível parte da carpintaria cinematográfica.

Tenho a tese furada de que a montagem é conseqüência da criação longa-metragem em ficção. No começo, o cinema era basicamente o registro do cotidiano, basta lembrar dos filmes dos irmãos Lumiére como Chegada do trem à estação, ou Saída dos operários da fábrica. A câmara ficava estática, distante, tentando manter um amplo foco enquadrando todo o cenário. Não nos esqueçamos que desde início o equipamento era muito caro, e pesado. Os realizadores pioneiros não se podiam dar o luxo de filmar seqüências com várias câmaras, nem tinha rolos de filme para jogar fora, além de que o “cameraman” operava manualmente o dispositivo. O sujeito não se animaria em se esfalfar filmando várias tomadas. Um perfeccionista como Charles Chaplin era o tormento das equipes dos estúdios, na sua obsessão em filmar dezenas, até centenas de takes.

Logo se atentou que filmes poderiam ser usados para contar histórias, mas ainda não existiam os códigos, hoje plenamente consolidados. Num documentário sobre os primórdios do cinema vi um Assalto na feira. Em pouco menos de 10 minutos, num plano seqüência (sem cortes), um grupo de 50 pessoas, num cenário que reproduzia um mercado de rua. Muita confusão, gente indo de um canto a outro, a câmara, sempre distante e parada, não permite entender o que ocorria, pelo menos, até o final, quando todos correm atrás de um menino segurando um porco.

Revendo o filme, aí sim, se percebe que no canto direito, o garoto tenta todo o tempo aproveitar uma distração dono do porco, para roubá-lo. Nenhuma indicação é dada para que atente que este é o único plot que interessa à história.

Hoje parece risível mas as primeiras audiências não conseguiram decodificar digamos, três cenas, óbvio, exibidas em sequência, na primeira alguém é convidado para de uma festa de aniversário, este explica que não tem o presente. Corte. O sujeito está numa joelharia e compra um relógio. Corte. Festa, ele entra e dar o presente para a aniversariante. No começo não havia a gramática que faria a platéia deduzir, que o rapaz saiu para comprar a jóia e depois entrega a moça. A montagem também necessitava ser assimilada, eis a contribuição de David Wark Griffith.

Como falei anteriormente, acredito que a montagem surgiu com os longa-metragens, que são um criação de D. W. Griffith. Quer dizer, é tanto criação de Griffith quanto a imprensa é de Johannes Gutenberg. A impressão, tipos móveis, tipo móvel de metal, já existiam antes de 1455, da mesma forma cortes, focos, planos, lentes angulares, em 1915, quando o americano filmou O Nascimento da Nação. O que ambos inventaram é o método que se tornariam paradigma.

Pense no seguinte roteiro:

“Marido chega em casa cansado, senta na poltrona da sala e tenta ler o jornal, sua mulher começa a discutir sobre as amenidades, o homem só quer um pouco de sossego, tenta várias vezes recomeçar a leitura, mas sempre é interrompido. A tensão cresce, lentamente ele se levanta vai na direção de uma gaveta, abre. Do lado do pacote com aspirina está um revólver, por um instante hesita, e por fim pega o remédio soltando um suspiro”

Numa peça de teatro, o ator teria que exagerar no gestos, desabaria na poltrona, pegaria e soltaria o jornal compulsivamente, na indecisão sobre qual coisa pegar na gaveta, seria histriônico, puxando, sem a mulher ver a arma, e o remédio, um depois o outro, cada vez mais rápido e histérico. Isso porque ele precisa nos direcionar o olhar. Num palco, vários metros longe da platéia, tem que supervalorizar seus atos.

Já num filme, por exemplo, podemos ter uma imagem sempre voltando para a manchete do jornal, demonstrando a tensão do casal em cortes acelerados para os rostos dos dois. A dúvida dos objetos na gaveta, close nos dois, suaves transições com a mão segurando um, depois o outro, um, depois o outro, um, depois o outro.

É a mesma cena, contudo os recursos de montagem, possibilitaram uma gama maior de tensão. Alfred Hitchcock, que dizia que o suspense é a expansão até o limite do insuportável de um momento de tensão, não funcionaria no meio teatral. Ele precisava desses recursos que mencionei.

Quem deu grande contribuição teórica (não menor que a prática) foi o cineasta russo Serguei Eisenstein. Defendia que a forma que a montagem é feita, por si só contribuía para como a enxergaríamos, a obra. É emblemático a seqüência em seu grande clásssico, O Encoraçado Potemkin, em que primeiro aparece a estátua dum leão deitado, depois outro que levanta a cabeça, por fim um em pé urrando, representando o levante popular. Não esquecendo da cena da escadaria de Odessa.

Repare que não aparecem o rosto dos cossacos, tal como na pintura de Goya. Citando o Encoraçado Potemkin, é obrigatório lembrar da homenagem prestada em Os Intocáveis de Brian DePalma .

Não nego um certo tendecionismo, mas para mim ninguém alcançou a elegância das montagens dos filmes de Stanley Kubrick, nem mesmo o mestre Hitchcock. Eis meus argumentos:

Maravilhoso! Em 2001 – Uma odisséia no espaço, tem o mais belo corte da história do cinema.

Percebeu? O macaco lança um pedaço de osso, e o que “cai” é uma nave espacial. A primeira ferramenta e a mais sofisticada, numa fração de segundo. Toda a história da humanidade cabe aí. Na seqüência o balé das naves no espaço ao som do Danúbio Azul de Strauss. Espetacular!

Como o post já esta muito grande fecho com um dos meus filmes favoritos. A montagem teve um senhor desafio em dar coerência a um filme que é contato de trás para frente, só vendo inúmeras vezes podemos comprovar o notável trabalho realizado aqui. Efusivamente recomendo Amnésia de Christopher Nolan (e todos mencionados anteriormente, é claro)

Bom divertimento!
—————-
Now playing: Clint Mansell – Lux Aeterna
via FoxyTunes

Escrito por alexandremelo

janeiro 30, 2008 em 9:54 pm

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Ludopédicas

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No último domingo houve o grande clássico do campeonato de futebol do meu estado Fortaleza x Ceará. Quem ganhou, quem foi o herói, o vilão, o juiz foi tendencioso ou equilibrado, errando de forma crassa para os dois lados? Nada disso importa. Fica menor quando se ouve histórias como a de um casal que ia numa moto para o jogo, atacado à pedradas, por vestir a camisa de um dos times. Não acaba aí, a mulher, estava armada e revidou atirando em seus agressores. Diz o gracejo que mulheres nunca entenderam a lei do impedimento, parecem que pragmáticas, tentam primeiro chegar vivas ao jogo.
O clima de animosidade é perene. Desde da compra do ingresso (caro), em poucas e desorganizadas bilheterias, ou sendo acossado pelos cambistas. Antes de entrar no estádio, a polícia faz revista nos indivíduos atrás de armas, rojões e bebidas alcoólicas. Em outros eventos, também há uma rotina de segurança, mas não tão minuciosa. Passando por isso, não se tem conforto, área para lanches, banheiro limpos. Não se pode nem tentar apenas ver a partida, a qualquer momento uma das facções da organizada entra em atrito com a rival, mesmo a do mesmo time, e a polícia tenta conter os focos de briga mais atrapalhadamente, só faz aumentá-la.
Fim do jogo não traz alívio, começa uma batalha para tentar voltar para casa, entre os piquetes da tropa de choque e torcedores. Se você foi de carro, é bem possível que acabe depredado, se foi de ônibus, o martírio é maior, a muito tempo que os empresários das empresas decidiram não oferecer carros extras, e só a canalha inconseqüente e/ou vendida da crônica esportiva, tem a pusilâminidade de falar contra.
Estranho que as equipes se apresentaram com os uniformes baseados nos clubes que lhe deram origem. O Fortaleza, antes era o Stella, já o Ceará, Rio Branco, ambos fundados e extintos na década de 1910, por uma dessas curiosidades do esporte, nunca se enfrentaram nessas designações primevas. Não soube de nenhuma dessas efemeridades que mereceriam homenagens, mas valeu pela idéia simpática.
Agora, teve um gosto amargo pelas camisas continuaram a expor o nome dos patrocionadores. Seria um gesto elegante pelo menos a foto oficial do jogo fosse com uma versão alternativa com a recriação dos uniformes “limpos”. Particularmente achei estranha a camisa do Rio Branco em branco e lilás (lembra um pouco a camisa da Fiorentina, na Itália) com a logomarca RABELO estampada. A do Stella, ficou visualmente mais agradável, a patrocionadora SANTANA TÊXTIL, adaptou-se pra que não entrassem em choque com a camisa, usando o vermelho, uma das cores do brasão. Agora nada conseguiria salvar o desastre que é ter escrito Kanja, num uniforme, a menos que trabalhe num restaurante.
Seria exagerado esperar dos patrocinadores abrissem mão da exposição durante jogo, afinal hoje o futebol é negócio. Não acho que seja algo irreversível, mas hoje, é mais que necessário perceber que como esse esporte gera muita renda, que os jogadores, clubes, e sim, os dirigentes, desde que mais que honestos, também profissionais, tenham acesso a parte do lucro.
Só desejaria que existisse mais bom-senso. Nenhum clube brasileiro faz escolhas tão erradas como o Corinthians, pulo a associação com a MSI pela redundância, mas basta lembrar a horrenda camisa da época da Tintas Suvinil. Ou ainda com o patrocínio com a Batavo, com a Embratel para estampar DDD. Agora as coisas melhoraram um pouco, a Medial Saúde aceitou trocar a cor oficial da marca, pelo preto (patético a histeria dos cartolas do Timão, dizendo que “esse cor”, era “daquele time”, bastava dizer serenamente, verde e Palmeiras, respectivamente, explicando que não casava com a tradição do clube)
Há casos que o patrocínio praticamente se integrou a camisa. Tenho dificuldade em imaginar o Flamengo sem a Petrobrás. Não tenho tanto entusiasmo, mas gosto da versão do “smiley”, que a LG usa como marca no São Paulo, porém, o Habib’s com seu amarelo-ovo e gênio sorridente são deslocados.
Tem coisas engraçadas como Eurico Viana se indispôndo com Deus e o mundo, e durante um longo período o Vasco tinha a mais linda camisa do Brasil, só o branco com a faixa negra e a Cruz de Malta. Pena, para no final o clube aceitar dinheiro do BMG, banco envolvido em falcatruas como o mensalão.
Mas o caso mais deplorável é o de clubes tradicionais como o Milan e o Real Madri que estampam um site de apostas, o Bwin. Como encarar esses times, e seus jogadores e não tem um ponta de desconfiança sobre se são ou não perniciosos.
Agora uma atitude antipoda não me parece louvável, caso do Barcelona que faz propaganda do UNICEF. Pelo direito de promover a Fundo das Nações Unidas para a Infância, o clube catalão não paga nada. Que feio, se promovendo às custas das criancinhas!

Escrito por alexandremelo

janeiro 29, 2008 em 10:00 pm

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